14/11/2015

Malditos terroristas e malditos aqueles que os pariram...

10/11/2015

No ocaso do XX governo constitucional - o breve -, leituras alternativas...

Afinal, no momento em que  o irrevogável Portas vai ser revogado e o Coelho assiste à chegada do seu São Martinho, para desintoxicar da poluição dos escribas de pasquins neo-liberais, do ruído de papagaios amestrados em economês, e das previsões catastróficas de astrólogos disfarçados de políticos de direita ultramontana, nada melhor do que passar os olhos por outras páginas, aqui, leituras e olhares alternativos.

06/11/2015

A Palavra - Um Poeta que escreve - Um Poeta que diz - São os homens com asas... Nem tudo é cinzento neste país.

Dentro e sobre os homens, José Luís Peixoto
Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.
Depois das nuvens, no último lugar do mundo, ficamos aonde não chegam as vozes. Os nossos olhares estendem-se aos cantos mais esquecidos das casas, ao fundo do mar, aos lugares que só os cegos vêem, às rochas cobertas por folhas na floresta, às ruas de todas as cidades. Os nossos olhares tocam os lugares iluminados e tocam os lugares negros. Ninguém e nada nos pode fugir. À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite, tocamos em rostos. E sorrimos. O som de um tiro. O fogo dentro de um frasco de veneno. Sangue a secar na linha de uma lâmina. Uma corda esticada na noite. Morte fogo sangue morte. E sorrimos. Longe da lua, depois das nuvens, o nosso rosto é uma ferida aberta no céu da noite. O mundo, diante de nós. Podemos tocar-te agora. Com o movimento mais pequeno de um dedo, podemos destruir aquilo que te parece mais seguro. Estás diante de nós. Se quisermos, podemos tocar-te. Se quisermos, podemos destruir-te.
Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. Em algum instante da tua vida, enchemos-te e envolvemos-te com a imagem da nossa voz, a imagem do nosso significado, o silêncio e as palavras. Num instante que escolhermos podemos voltar a encher-te e a cobrir-te. Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois das nuvens, e encontrar-nos-ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é o preço por caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar. 
Somos o medo. Conhecemos tantas histórias. Todos os amantes que olham pela janela e imaginam que se perderam para sempre. Todos os homens que, num quarto de hospital, abraçam os filhos. Todos os afogados que, pela última vez, levantam a cabeça fora de água. Todos os homens que escondem segredos. E tu? Escondes algum segredo? Não precisas de responder. Conhecemos a tua história. Vimos-te mesmo quando não nos vias. Vemos-te agora. Escondes algum segredo? Responde quando te olhares ao espelho. O teu rosto duplicado: o teu rosto e o teu rosto. Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti, olha para o mais fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti. Nesse momento, estaremos contigo. Envolver-te-emos e estarás sozinho.
Depois das nuvens, sobre os homens, debaixo da pele, dentro dos homens, esperamos por ti. Estamos a ver-te agora, enquanto lês. Estaremos a ver-te quando deixares de pensar nestas palavras. Dentro e sobre o teu rosto, sabemos os teus segredos. Sabemos aquilo que escondes até de ti próprio. Não nos podes fugir. Na palma das nossas mãos seguramos o teu coração, podemos esmagá-lo. Não podes fazer nada para nos impedir. O nosso olhar está parado sobre cada um dos teus gestos e sobre cada uma das tuas palavras. Diz uma palavra agora. Faz um gesto. Sorrimos perante as tuas palavras, como sorrimos perante o teu silêncio. Ninguém poderá proteger-te. Ninguém pode proteger-te agora. És ainda menos do que imaginas. Nós assistimos a mil gerações de homens como tu. Para nosso prazer, deixámo-los caminhar pelas linhas das nossas mãos. Para nosso prazer, tirámos-lhes tudo. Guiámos gerações inteiras de homens por túneis que construímos em direcção a nada. E, quando chegaram ao vazio, sorrimos. És igual a todos eles. Esperamos por ti dentro e sobre o teu rosto. Continua o teu caminho. Segue por essa linha da nossa mão. Nós sabemos onde termina esse túnel em que caminhas. Continua a caminhar. Nós esperamos por ti. Sorrimos ao ver-te. Depois das nuvens, somos o medo. Debaixo da pele, somos o medo.

05/11/2015

PáF: 25 de Novembro, a cortina que esconde a nostalgia do tempo da outra senhora...

Claro, é uma espécie de democracia de há longa data, corporativa, só para castas de grande lata... 

PSD e CDS-PP propõem evocação do 25 de Novembro no Parlamento

Onde é que já vi este filme? Soft, dizem... Então o programa? E as promessas? Mais uma vez, não foi preciso esperar muito para relembrar o refrão popular: apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo... 

Governo prolonga medidas de austeridade, em versão mais soft

Nervosos, raivosos, mesquinhos, com as suas televisões, os seus jornais, os seus vendedores de banha da cobra, os seus comentadores de lixo, os seus apóstolos do pensamento único que não pensam nada, que não valem nada, que não servem para nada a não ser poluir o ambiente, com o fedor que exalam quando abrem as fauces maquilhadas de fel, tudo farão na sua cruzada pela destruição do pouco que ainda resta ao país. Morrerão gordos e balofos depois de tanto dobrarem a espinha aos seus amos, depois de saborearem o caviar efémero nas botas lambidas aos senhores. Apesar da pressa mercantilista num quadro existencial ao revés - ó tempo, volta para trás -, o relógio se encarregará de os colocar no sítio a que pertencem, nos esgotos putrefactos da história.   

Contrato de venda da TAP deverá ser assinado ainda esta semana

Assim sempre poderão dizer que alguns pensionistas foram bem tratados...




01/11/2015

José Fonseca e Costa, 1933-2015

CRUZES!, canhoto...



Pelo sim, pelo não, façamos figas...


Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demónios,
trasgos e diabos,
espíritos das enevoadas veigas.
Corvos,
píntigas e meigas:
feitiços das mezinheiras.
Podres canhotas furadas,
lar dos vermes e alimárias.
Fogo das
Santas Companhas,
mau-olhado, negros feitiços,
cheiro dos mortos, trovões e raios.
Uivar do cão, pregão da morte;
focinho do sátiro e pé do coelho.
Pecadora língua da má mulher
casada com um homem velho.
Averno de Satã e Belzebu,
fogo dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
mugido do mar embravecido.
Barriga inútil da mulher solteira,
falar dos gatos que andam à janeira,
guedelha porca da cabra mal parida.
Com este fole levantarei
as chamas deste fogo
que assemelha o do Inferno,
e fugirão as bruxas
a cavalo das suas vassoiras,
indo se banhar na praia
das areias gordas.
Ouvi, ouvi! os rugidos
que dão as que não podem
deixar de se queimar na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando esta beberagem
baixe pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males
da nossa alma e de feitiço todo.
Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que a humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco desta Queimada.

O esconjuro da queimada foi escrito por Mariano Marcos Abalo em 1967 e revisto em 1974.