17/05/2015

17M 2015 - Dia das Letras Galegas, recordar Celso Emílio e Alexandre Bóveda, hoje e sempre

Ti convocache ó día dende a tebra,
amigo morto polo ferro airado,
cando chegou Caín, cando a pavura
cubriu de noite ó pobo sin guieiros.

0 dia vai a vir, poreime a alma,
mais non me esquecerei das horas torvas,
cando o terror i o sangue, cando o medo,
cando a treición vencéu, cando a carraxe,
irmau maor, sacrificado á sombra.

A nosa obriga é seguirche os pasos,
mais por outros caminos que non leven
os bosques dos supricios,
as selvas dos coitelos afiados,
sinon ás terras outas onde temos
a casa vinculeira.

0 dia xa está pronto, alma que agardas,
faite bandeira, berra o teu dereito
a ser estrela cando os tempos cheguen,
cando as gaitas trunfás soen nas rúas,
cando a irmandá, cando a ateigada artesa.
cando os homes da terra señan río
de liberta, cun gran cachón no meio,
cando tódolos nenos de Galicia
sepan por qué mataron a Alexandre,
esforzado Amadís, capitán noso.


CELSO EMILIO FERREIRO

17M - Dia das Letras Galegas

Porque é no galego que reside a essência da língua portuguesa, "QUE SE VEXA O GALEGO" na Galiza, e em Portugal também.

Canción pra cando se escoita falar castrapo. 

Ollade esa antroidada: son galegos,
xente do pobo, sinxela e moi normal.
Olládeos, como un fato de borregos,
falando o seu castrapo "tipical".

Esprésanse nunha estrana xerigonza,
van falando un idioma que non hai.
E sinten fondo reparo, gran vergonza,
en falar, como é debido, a fala nai.

Ollade ós moi paletos e cretinos
ladrando o seu castrapo por aí,
intentando ser lidos, cultos, finos
imitando ós "castizos" de Madrí.

Eles, probes, non poden ser culpados
polo seu idioma, tristeiro i anormal.
A culpa é de quen di: "Sede educados,
que falar galego está moi mal..."

Manuel María (2001) Obra poética completa I (1950-1979) (A Coruña: Espiral Maior)


03/05/2015

3 de Maio? 8 de Dezembro? Todos os dias.

Poema à Mãe

No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"