29/03/2015

"A cidade das palavras"


As caixas do correio de Montevideu existem desde tempos imemoriais, feitas de bronze com adornos, juntas umas às outras entre o chão e o tecto. 
Eu visito-as à tarde.  De cada vez que vou, antes de abrir a minha caixinha, detenho-me, chave na mão, ouvido atento. As caixas formam uma cidade de palavras, e eu escuto.
Ali há cartas de muita gente, dirigidas a muita gente desde todos os lugares do mundo. As cartas, que não conseguem estar caladas, falam todas ao mesmo tempo. Eu não entendo o que dizem, mas tento adivinhar-lhes as vozes: as cartas riem, suspiram, gemem, refilam, assobiam, cantam, todas loucas de vontade a serem abertas e lidas.
(Eduardo Galeano)