14/11/2015

Malditos terroristas e malditos aqueles que os pariram...

10/11/2015

No ocaso do XX governo constitucional - o breve -, leituras alternativas...

Afinal, no momento em que  o irrevogável Portas vai ser revogado e o Coelho assiste à chegada do seu São Martinho, para desintoxicar da poluição dos escribas de pasquins neo-liberais, do ruído de papagaios amestrados em economês, e das previsões catastróficas de astrólogos disfarçados de políticos de direita ultramontana, nada melhor do que passar os olhos por outras páginas, aqui, leituras e olhares alternativos.

06/11/2015

A Palavra - Um Poeta que escreve - Um Poeta que diz - São os homens com asas... Nem tudo é cinzento neste país.

Dentro e sobre os homens, José Luís Peixoto
Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.
Depois das nuvens, no último lugar do mundo, ficamos aonde não chegam as vozes. Os nossos olhares estendem-se aos cantos mais esquecidos das casas, ao fundo do mar, aos lugares que só os cegos vêem, às rochas cobertas por folhas na floresta, às ruas de todas as cidades. Os nossos olhares tocam os lugares iluminados e tocam os lugares negros. Ninguém e nada nos pode fugir. À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite, tocamos em rostos. E sorrimos. O som de um tiro. O fogo dentro de um frasco de veneno. Sangue a secar na linha de uma lâmina. Uma corda esticada na noite. Morte fogo sangue morte. E sorrimos. Longe da lua, depois das nuvens, o nosso rosto é uma ferida aberta no céu da noite. O mundo, diante de nós. Podemos tocar-te agora. Com o movimento mais pequeno de um dedo, podemos destruir aquilo que te parece mais seguro. Estás diante de nós. Se quisermos, podemos tocar-te. Se quisermos, podemos destruir-te.
Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. Em algum instante da tua vida, enchemos-te e envolvemos-te com a imagem da nossa voz, a imagem do nosso significado, o silêncio e as palavras. Num instante que escolhermos podemos voltar a encher-te e a cobrir-te. Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois das nuvens, e encontrar-nos-ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é o preço por caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar. 
Somos o medo. Conhecemos tantas histórias. Todos os amantes que olham pela janela e imaginam que se perderam para sempre. Todos os homens que, num quarto de hospital, abraçam os filhos. Todos os afogados que, pela última vez, levantam a cabeça fora de água. Todos os homens que escondem segredos. E tu? Escondes algum segredo? Não precisas de responder. Conhecemos a tua história. Vimos-te mesmo quando não nos vias. Vemos-te agora. Escondes algum segredo? Responde quando te olhares ao espelho. O teu rosto duplicado: o teu rosto e o teu rosto. Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti, olha para o mais fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti. Nesse momento, estaremos contigo. Envolver-te-emos e estarás sozinho.
Depois das nuvens, sobre os homens, debaixo da pele, dentro dos homens, esperamos por ti. Estamos a ver-te agora, enquanto lês. Estaremos a ver-te quando deixares de pensar nestas palavras. Dentro e sobre o teu rosto, sabemos os teus segredos. Sabemos aquilo que escondes até de ti próprio. Não nos podes fugir. Na palma das nossas mãos seguramos o teu coração, podemos esmagá-lo. Não podes fazer nada para nos impedir. O nosso olhar está parado sobre cada um dos teus gestos e sobre cada uma das tuas palavras. Diz uma palavra agora. Faz um gesto. Sorrimos perante as tuas palavras, como sorrimos perante o teu silêncio. Ninguém poderá proteger-te. Ninguém pode proteger-te agora. És ainda menos do que imaginas. Nós assistimos a mil gerações de homens como tu. Para nosso prazer, deixámo-los caminhar pelas linhas das nossas mãos. Para nosso prazer, tirámos-lhes tudo. Guiámos gerações inteiras de homens por túneis que construímos em direcção a nada. E, quando chegaram ao vazio, sorrimos. És igual a todos eles. Esperamos por ti dentro e sobre o teu rosto. Continua o teu caminho. Segue por essa linha da nossa mão. Nós sabemos onde termina esse túnel em que caminhas. Continua a caminhar. Nós esperamos por ti. Sorrimos ao ver-te. Depois das nuvens, somos o medo. Debaixo da pele, somos o medo.

05/11/2015

PáF: 25 de Novembro, a cortina que esconde a nostalgia do tempo da outra senhora...

Claro, é uma espécie de democracia de há longa data, corporativa, só para castas de grande lata... 

PSD e CDS-PP propõem evocação do 25 de Novembro no Parlamento

Onde é que já vi este filme? Soft, dizem... Então o programa? E as promessas? Mais uma vez, não foi preciso esperar muito para relembrar o refrão popular: apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo... 

Governo prolonga medidas de austeridade, em versão mais soft

Nervosos, raivosos, mesquinhos, com as suas televisões, os seus jornais, os seus vendedores de banha da cobra, os seus comentadores de lixo, os seus apóstolos do pensamento único que não pensam nada, que não valem nada, que não servem para nada a não ser poluir o ambiente, com o fedor que exalam quando abrem as fauces maquilhadas de fel, tudo farão na sua cruzada pela destruição do pouco que ainda resta ao país. Morrerão gordos e balofos depois de tanto dobrarem a espinha aos seus amos, depois de saborearem o caviar efémero nas botas lambidas aos senhores. Apesar da pressa mercantilista num quadro existencial ao revés - ó tempo, volta para trás -, o relógio se encarregará de os colocar no sítio a que pertencem, nos esgotos putrefactos da história.   

Contrato de venda da TAP deverá ser assinado ainda esta semana

Assim sempre poderão dizer que alguns pensionistas foram bem tratados...




01/11/2015

José Fonseca e Costa, 1933-2015

CRUZES!, canhoto...



Pelo sim, pelo não, façamos figas...


Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demónios,
trasgos e diabos,
espíritos das enevoadas veigas.
Corvos,
píntigas e meigas:
feitiços das mezinheiras.
Podres canhotas furadas,
lar dos vermes e alimárias.
Fogo das
Santas Companhas,
mau-olhado, negros feitiços,
cheiro dos mortos, trovões e raios.
Uivar do cão, pregão da morte;
focinho do sátiro e pé do coelho.
Pecadora língua da má mulher
casada com um homem velho.
Averno de Satã e Belzebu,
fogo dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
mugido do mar embravecido.
Barriga inútil da mulher solteira,
falar dos gatos que andam à janeira,
guedelha porca da cabra mal parida.
Com este fole levantarei
as chamas deste fogo
que assemelha o do Inferno,
e fugirão as bruxas
a cavalo das suas vassoiras,
indo se banhar na praia
das areias gordas.
Ouvi, ouvi! os rugidos
que dão as que não podem
deixar de se queimar na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando esta beberagem
baixe pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males
da nossa alma e de feitiço todo.
Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que a humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco desta Queimada.

O esconjuro da queimada foi escrito por Mariano Marcos Abalo em 1967 e revisto em 1974.


22/10/2015

Portugal suspenso...

Depois de 4 de Outubro há muito nervosismo. A direita, convicta de que o Estado é a sua quinta privada, nega-se a ver o evidente: a maioria dos eleitores não lhes renovou a confiança. A PaF - PPD-PSD/CDS-PP, ficou em primeiro lugar mas perdeu as eleições, porque não tem a maioria de deputados que podem viabilizar um governo. Perdeu deputados e, uns mais e outros menos, todos ganharam os deputados que a direita perdeu. A direita esconde algo, mas dentro de uma ou duas semanas já saberemos o quê. Esconde algo porque não é normal o histerismo a que chegou. Nós sabemos muito bem que a "casta" dos poderosos gosta de encher a boca de democracia, mas gosta muito mais de engordar à custa do empobrecimento da maioria. Fala de tratados internacionais mas não cumpre a Constituição da República, vende o património nacional como se fosse parte dos seus bens privados e pessoais, usa os meios de intoxicação social - revistas, jornais, televisões, blogues, diários digitais e os seus profissionais (salvo raras e honrosas excepções) transformados na "voz do amo"-, para manipular, amedrontar, fazer chantagem, desenvolver a iliteracia, enganar, mentir, prostituir, exibir a mediocridade, promover comentadores de lixo, transformar pseudo-cientistas sociais em astrólogos e comentadores de metro e meio em onanistas gigantes. A casta, os de cima, a direita, mira-se ao espelho todas as manhãs, e nas imagens reflectidas vê belas onde só há bestas. A direita anda com problemas hormonais, exagera na prática do coito interrompido, alimenta a líbido com irrealidades fantasmagóricas e, pior do que tudo, atinge o clímax embriagada de irracionalidade. E a direita precisa de se democratizar ou não atingirá a plena juventude, porque  não há lifting que a faça mais nova enquanto  perseverar em ser tão velha como o velho do Restelo. A direita tem um presidentinho e nisso ganha a Portugal que não tem Presidente nenhum. Mas tem um parlamento democraticamente eleito, onde uma maioria de esquerda vai trabalhar para restituir a dignidade ao Povo, depois de 4 anos de atrocidades e sequestro. E isto, não há nenhum génio da banalidade accionista do BPN, que o pare.   

25/07/2015

Dia da Pátria Galega - 25 de Xullo, sempre!

"Chegan a decir que o problema galego, igual que o vasco e catalán, depende da solución que acorde a maioria dos hespañoes...
Estábamos aviados!
( Alfonso Daniel Rodriguez Castelao)

12/07/2015

Javier Krahe (Madrid, 30 de marzo de 1944 - Zahara de los Atunes, 12 de julio de 2015



Y Todo Es Vanidad de Javier Krahe

Gracias a mi conducta vagamente antisocial 
temo no verme nunca encaramado a un pedestal: 
no alegrará mi efigie el censo de monumentos, 
no vendrán las palomas a rociarme de excrementos. 

Y es una pena, la verdad, 
porque sería muy bonito 
seguir de adorno en mi ciudad 
sobre un bloque de granito. 

Pues qué penita y qué dolor, 
no tendré estatua, no señor. 

Gracias a mi postura más bien anticlerical 
no será un siglo de éstos cuando entre al santoral: 
no acudirán beatas a pedirme un milagrillo, 
no vendrán los ladrones a vaciarme mi cepillo. 

Y es una pena, la verdad, 
porque tenía cierta gana 
de echarle un ojo a la deidad 
mientras me doran la peana. 

Pues qué penita y qué dolor 
no tendré culto no señor. 

Gracias a que mi musa se las da de cerebral 
son pobres mis compases para expresión corporal: 
no danzarán mis prosas las reinas de discoteca, 
no vendrán los carrozas a hacer su gimnasia sueca. 

Y es una pena, la verdad, 
porque sería algo inefable 
cambiar la torpe realidad 
y ser o Borges o bailable. 

Pues qué penita y qué dolor 
no tendré el Nobel, no señor. 

Gracias a mi tozuda decisión existencial 
no cabe entre mis planes dar ningún salto mortal: 
no gozará las honras funerales mi alma en pena, 
no vendrán los gusanos a tirar de la cadena. 

Y es una pena, la verdad, 
porque sería algo divino 
ver cómo todo es vanidad, 
y yo en decúbito supino. 

Pues qué penita y qué dolor 
no tendré esquela, no señor. 

07/07/2015

"Esta é a ditosa língua, minha amada"

"Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada".    
ζουν Ελλ?δα , zoun Elláda, viva a Grécia."
Hélia Correia, Prémio Camões 2015
Texto completo aqui.


06/07/2015

Varoufakis,Varoufakis sempre!

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Varoufakis deixou de ser ministro porque provocava  pesadelos aos inúteis funcionários da troika durante o sono.
Varoufakis punha nervosos os eurocratas, provocando-lhes distúrbios fisiológicos de variada natureza, principalmente intestinais e psíquicos.
Varoufakis era um Ministro das Finanças, e os contabilistas não gostavam disso.
Varoufakis nasceu para provar que o génio da banalidade de Boliqueime, pode saber muito de operações aritméticas mas, tal como "Jesus Cristo, não percebe nada de finanças nem consta que tenha biblioteca."
Varoufakis em cinco meses ganhou a admiração e o respeito do seu povo, porque é um homem livre e digno que com naturalidade será reconhecido pela história, ao contrário dos dezoito ministros da contabilidade com quem tinha que negociar, meros servos do nazismo financeiro, que os amos utilizam a seu bel-prazer, toleram e, chegado o momento deitam fora, merecedores apenas do desprezo e do esquecimento.
Varoufakis é Grego, e a Grécia é o Berço da Democracia e da Europa. Os outros dezoito são germânicos ou proto-germânicos de várias origens, e a história ensina-nos que dessa terra de bárbaros não se pode esperar nada de bom.

05/07/2015

O IV reich e a troika sofrem a primeira grande derrota

A frase da imagem é de Joseph Stiglitz, Nobel de Economia. Mas esse problema terá que ser resolvido, ou antes, começou a solucionar-se hoje com a democracia grega a derrotar a ditadura da austeridade por números significativos, ao contrário do que "prognosticavam" os órgãos de intoxicação social do regime do pensamento único. Por cá, o génio da banalidade e presidente da República do Cavaquistão descobriu mais uma vez a pólvora, mas a pólvora seca, ao elucidar os cavaquistaneses que operações de subtracção são com ele, destacado contabilista/economista, ao conseguir demonstrar o fantástico resultado de que 19 menos um (19-1) é igual a dezoito (18). Mas como o pensamento abstracto nas ciências da vida, só fazem sentido quando corroborados pelo conteúdo e qualidade do objecto em questão, esqueceu-se (ou não chega lá), de que 1 tomate saudável e bem posto no sítio certo (ou um par), vale mais do que 18 tomates podres e murchos. Enfim , coisas da vida real. Obrigado Grécia...

A Europa não existe sem a Grécia, mas deve prescindir dos austericídas nórdicos e dos seus lacaios do sul

Alexandre, o Grande: Diz-me, velho filósofo. O que posso eu, fazer por ti?
Diógenes: Desviar-te, porque estás a tapar-me o sol, e não podes tirar-me o que não me podes dar.

17/05/2015

17M 2015 - Dia das Letras Galegas, recordar Celso Emílio e Alexandre Bóveda, hoje e sempre

Ti convocache ó día dende a tebra,
amigo morto polo ferro airado,
cando chegou Caín, cando a pavura
cubriu de noite ó pobo sin guieiros.

0 dia vai a vir, poreime a alma,
mais non me esquecerei das horas torvas,
cando o terror i o sangue, cando o medo,
cando a treición vencéu, cando a carraxe,
irmau maor, sacrificado á sombra.

A nosa obriga é seguirche os pasos,
mais por outros caminos que non leven
os bosques dos supricios,
as selvas dos coitelos afiados,
sinon ás terras outas onde temos
a casa vinculeira.

0 dia xa está pronto, alma que agardas,
faite bandeira, berra o teu dereito
a ser estrela cando os tempos cheguen,
cando as gaitas trunfás soen nas rúas,
cando a irmandá, cando a ateigada artesa.
cando os homes da terra señan río
de liberta, cun gran cachón no meio,
cando tódolos nenos de Galicia
sepan por qué mataron a Alexandre,
esforzado Amadís, capitán noso.


CELSO EMILIO FERREIRO

17M - Dia das Letras Galegas

Porque é no galego que reside a essência da língua portuguesa, "QUE SE VEXA O GALEGO" na Galiza, e em Portugal também.

Canción pra cando se escoita falar castrapo. 

Ollade esa antroidada: son galegos,
xente do pobo, sinxela e moi normal.
Olládeos, como un fato de borregos,
falando o seu castrapo "tipical".

Esprésanse nunha estrana xerigonza,
van falando un idioma que non hai.
E sinten fondo reparo, gran vergonza,
en falar, como é debido, a fala nai.

Ollade ós moi paletos e cretinos
ladrando o seu castrapo por aí,
intentando ser lidos, cultos, finos
imitando ós "castizos" de Madrí.

Eles, probes, non poden ser culpados
polo seu idioma, tristeiro i anormal.
A culpa é de quen di: "Sede educados,
que falar galego está moi mal..."

Manuel María (2001) Obra poética completa I (1950-1979) (A Coruña: Espiral Maior)


03/05/2015

3 de Maio? 8 de Dezembro? Todos os dias.

Poema à Mãe

No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro" 

05/04/2015

31/03/2015

" Da liberdade interior" "No país dos lambe botas"

(No país dos lambe botas de Luiz Morgadinho)

Curvei-me
para beijar
as negras e bem polidas botas 
do nosso amo
e então ele disse:
mais!

Curvando-me mais
senti
com prazer
a resistência
da minha coluna
que não queria estar dobrada

Feliz, verguei-me ainda mais
reconhecido ao nosso amo
por esta descoberta
da minha dignidade
e força
interiores

(Da liberdade interior de Erich Fried)







29/03/2015

"A cidade das palavras"


As caixas do correio de Montevideu existem desde tempos imemoriais, feitas de bronze com adornos, juntas umas às outras entre o chão e o tecto. 
Eu visito-as à tarde.  De cada vez que vou, antes de abrir a minha caixinha, detenho-me, chave na mão, ouvido atento. As caixas formam uma cidade de palavras, e eu escuto.
Ali há cartas de muita gente, dirigidas a muita gente desde todos os lugares do mundo. As cartas, que não conseguem estar caladas, falam todas ao mesmo tempo. Eu não entendo o que dizem, mas tento adivinhar-lhes as vozes: as cartas riem, suspiram, gemem, refilam, assobiam, cantam, todas loucas de vontade a serem abertas e lidas.
(Eduardo Galeano)

24/03/2015

Submarinos, corrupção, e os vídeos de que a casta do CDS não gosta...

A bem da sanidade política, o que seria bom era que a justiça funcionasse. Mas se não funcionar e a culpa morrer solteira uma vez mais, coisa habitual cá no rectângulo, isso não significa que a corrupção não exista. Os corruptos e os seus cúmplices não gostam deste vídeo? Paciência, também há quem prefere um Estado de Direito e tem de aguentar um Estado de Direita, ou o Estado a Que Isto Chegou...

Há ouro em quê?

Herberto Helder, 1930-2015 - A imortalidade da palavra, a permanência da voz...


Morreu o poeta Herberto Helder

23/03/2015

Micro-relato

"Há romances que, mesmo sem serem longos,  não conseguem começar verdadeiramente antes da página 50 ou 60. A algumas vidas acontece-lhes o mesmo. Por isso não me suicidei antes, senhor juiz."

Juan José Millás


22/03/2015

The German Übermacht...

Capa da revista  Der Spiegel de ontem, mostra-nos que nem todos os alemães vêem em Angela as qualidades que os governantes portugueses tanto apreciam...

Merkel recebe Tsipras para tentar acalmar os ânimos ...

...coisa que não é difícil, basta com que os PIGS austeritários germânicos, paguem o que devem à Grécia.


20/03/2015

Em Andaluzia, a Primavera começa no dia 22


Equinócio

David Mourão-Ferreira/Equinócio


Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

19/03/2015

Devotos...

Por este andar, e tendo em conta que das vigílias às procissões de velas a distância é insignificante, os devotos da virgem de Fátima vão ter seguramente concorrência. Os acólitos e crentes do santo e mártir da cela 44 da prisão de Évora estão a organizar-se. Começaram pelas peregrinações à cidade alentejana, seguiram-se intervenções virulentas de destacados apóstolos da seita, aos jornais e televisões da Nação e, agora, passaram à apresentação pública do movimento evangélico socratino em formato cívico. O plano dos infiéis vem da direita, dizem. Mas de qual, da direita dos homens ricos, ou da direita da esquerda dos novos ricos? Entre uns e outros que venha o diabo e escolha. 

Movimento cívico diz que prisão de Sócrates é um "plano da direita"


16/03/2015

Schauble - a arrogância imperial...

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Ainda ninguém entendeu o que a Grécia quer, diz o ministro das Finanças alemão

Quem é que não entendeu? Qualquer europeu defensor da democracia e que se oponha aos abusos dos amos do mundo, entendeu que a Alemanha não pode arvorar-se em exemplo de nada nem de ninguém, enquanto não saldar a dívida contraída com os povos que sofreram o terror dos criminosos nazis. Hitler chegou ao poder com os votos da maioria dos alemães, pelo que nem sequer podem argumentar que o responsável era o ditador. A Alemanha do poder actual, arrogante e insolidária, engorda todos os dias com a miséria imposta aos povos da Europa do sul com essa arma chamada austeridade, que maneja tão bem como o fuhrer manejava os canhões e as técnicas de genocídio nos campos de concentração. O crime não deve ficar impune, e os europeus não se podem dar ao luxo de pactuar com a ideia de que o crime compensa, pois correm o risco de deixar de ser cidadãos para passarem a ser escravos de um novo tipo de reich - financeiro. Diz  Schäuble - Atenas "destruiu toda a confiança" , e engana-se mais uma vez, ou mente, porque não pode confundir o sentimento dos povos com a ideia que lhe podem transmitir os politiquinhos servis ao serviço da sua causa neo-liberal. Hoje, os povos europeus que sofrem na pele o ataque de que são alvo pelo poder dos banqueiros e dos interesses financeiros, têm mais claro que a mudança começou na Grécia, mas que em breve se estenderá a Espanha e outros países que não suportam mais a arrogância de poderes não eleitos e antidemocráticos. Ou construímos uma autêntica União Europeia dos povos, ou recuperaremos a soberania e a dignidade quer gostem ou não, mas não deixaremos que nos subjuguem. E a propósito, a Alemanha que pague o que deve ao povo GREGO.