28/05/2013

"Estamos tão cansados..."

...Fome e frio e miséria. E o medo, o medo. A vida é tão difícil. Conquista-se de hora a hora e tudo fica no começo. Vem. Criarás uma raça nova e divina, porque serás deus, filho de um deus, meu filho. Deus gasto, eu, sim. Ah, só o esforço de o ser, só o esforço brutal para me levantar acima de mim, dos meus tremores, só o esforço brutal para me erguer nos dois pés sobre a terra. Tudo está viciado em mim desde as origens, a minha divindade corrompeu-se há muitos anos. Mas tu és puro e forte. Matarás o deus velho de uma religião velha. Estamos todos tão velhos. Criarás a tua religião nova, a tua palavra nova. Está tudo por fazer. Tudo sujo e usado. A vida é tão difícil, oh. Mas é só o que temos. Dar-ta-ei sem vícios, limpa, por usar. Dar-ta-ei, porque é a única coisa que vale a pena. Está aqui - que fazer? - vale a pena. É a única forma de haver terra e água e fogo e ar. Dou-te a vida, porque é a única forma de tudo isso existir. Estou só, na aldeia deserta, quando foi o Natal? Quando nasceste? Dobram os sinos na minha esperança e nada mais aconteceu desde então. Dobram os sinos. Pelo céu frio e escuro. Dobram.
( Vergílio Ferreira, in "Alegria Breve" - excerto) 
«Comovo-me? Enterra os teus mortos e a terra será fértil com novas flores»