20/04/2013

JORNALISMO com maiúsculas - «OS MORTOS QUE NÃO SE VÊEM», de Javier Gallego

Tinha somente 8 anos e morreu depois de abraçar o pai. Separou-se dele, correu ao encontro da mãe e, de repente, uma explosão rebentou-o, transformou-o em pedaços, feriu gravemente a sua mãe e arrancou a perna à sua irmã de 6 anos. Não estou a falar de Boston, estou a falar de Bagdad. Não estou a falar dos 3 mortos e quase 200 feridos no atentado de segunda-feira nos Estados Unidos. Estou a falar dos 36 mortos e mais de 200 feridos do Iraque no mesmo dia, numa onda de atentados que aconteceram em Bagdad, Fallujah e Kirkuk. Estou a falar também dos 5 mortos e 18 feridos por outras bombas que explodiram ontem na capital.

Estou a falar de que vimos na televisão centenas de imagens das bombas nos Estados Unidos, dos feridos ensanguentados, do pânico nas caras das vítimas e testemunhas, conhecemos os seus nomes, o nome desse pobre menino, a tragédia dos seus pais, dos seus vizinhos. Sentimo-nos comovidos perante esse acto brutal. Mas não vimos imagens do terror nas caras dos Iraquianos, nem os seus corpos amputados, nem sabemos dos dramas pessoais de um país arrasado desde que os Estados Unidos e os seus aliados o invadiram ilegalmente e o destroçaram como uma bomba.

Eu só encontrei fotografias de carros queimados em Bagdad, não consegui saber quem foram as vítimas, não sei se morreu uma criança de 8 anos depois de abraçar o pai. Não sei mas imagino que poderia haver, que é muito possível que haja entre as vítimas algum rapazinho iraquiano com a mesma cara de anjo que tinha o pobre Martin Richard assassinado em Massachussets.

Enquanto via o incessante bombardeamento de imagens de Boston com as quais o Ocidente treme de horror e de tristeza, tratava de imaginar que eram as vítimas de tantos, centenas de atentados que sofre esse país desde há anos, e não pude evitar sentir indignação, vergonha, porque o nosso governo e os seus aliados foram lá colocar uma bomba que não pára de explodir. Mas as nossas televisões, nós - os jornalistas -, já não estamos lá para contá-lo, não o mostramos. Não sentimos pena nem piedade porque não os vemos.

Não serve de muito esta reflexão, eu sei, talvez só para recordarmos que o que contam os "media" é só metade do que acontece, que olhamos com egoismo e superioridade metade da humanidade, que vivemos num mundo asqueroso em que os mortos dos Estados Unidos valem mais do que os da Síria ou do Iraque, que os mortos de um dos lados valem mais do que os do outro.

E digo-o também pelo nosso país. Temos uma classe política que não quer ver os mortos, que nos trata como a iraquianos longínquos, e faz leis sem pensar que as suas decisões são um atentado contra os "despejados" da sociedade. Merecem a nossa perseguição e denúncia, o nosso "escrache"* e protesto.

Todos os mortos valem o mesmo mas não contamos todos os mortos. Há mortos que parece que não morrem porque não os vemos. Há mortos que não contam porque não os contamos. Sei que não podemos fazer muito mais do que gritar, mas gritemos, façamos o que estiver nas nossas mãos para que esses mortos também contem.

Javier Gallego, 18 de Abril 
Traducção - Inquietar

"escrache"*- perseguição e denúncia dos responsáveis de "acções de despejo", por parte das vítimas deste crime social.

A peça original pode ser lida aqui.