05/01/2013

Quotidianos - 2



Saio do cinema numa noite de Sábado e, na rua, quase às escuras, vejo um formigueiro de sombras reflectindo-se na montra de um supermercado que acaba de fechar. Uma a uma vão-se apagando as luzes. Os contentores do passeio trasbordam de sacos de alimentos recém-descartados: yogurtes, ovos, carne, conservas, congelados, pacotes de leite, embutidos, cestos de fruta, montões de legumes sem brilho. No passeio, em silêncio, cada um ao seu, ignorando-se umas às outras, sem se ajudarem nem interferirem, escarvam nos contentores, elegem, separam, guardam em bolsas, amontoam em carrinhos, partem cada uma em sua direcção, com as cabeças baixas, pessoas de meia idade ou já idosas, nenhuma com aspecto marginal, pessoas como eu que procuram nos desperdícios para remediar a fome. Quem contará as suas vidas?

António Muñoz Molina
Tradução Inquietar