04/01/2013

Quotidianos - 1



..."Levantar. Banho, às vezes. Um pão seco com aguada de café com leite. Depois jardim, se fizer sol. Com frio, caminhar para aquecer. Às nove metadona. Mais uma caminhada até à praça, olhos no chão a catrapiscar as beatas necessárias para enrolar um charuto. Droga de vida. Os carapaus fritos do costume, nos acostumados almoços em que nos fritam o estômago, as tripas, o fole, as vísceras... Tenho mais um dente podre. Restam-me três que acabarão por apodrecer também. Como o fígado, os pulmões, o sangue, a vida, essa grande puta a roer-me sem contemplações, e eu a correr numa pressa sem sentido e sem saber para onde, ou para quê... Quero parar, mas não sou capaz, mesmo parando a cada segundo que passa na corrupção putrefacta  deste corpo mal cheiroso, maltratado de vícios, carências e excessos de misérias insolúveis."...
(Inquietar)