18/01/2013

Há 79 anos - Homens com H Grande, de Coragem, de Dignidade, de Homens...

14/01/2013

7 minutos e 20 segundos: Quem quiser ouvir, que oiça. Quem quiser continuar "iluminadamente" cego e masoquista, não atrapalhe...

06/01/2013

Quotidianos - 3



O Manel anda danado. Os problemas respiratórios que tem sentido ultimamente tiram-no do sério. Merda, diz, a água para beber não me faz grande falta, mas que não tenha  sequer uns labrestos para a sopa por causa desta maldita geada, é coisa que  atormenta qualquer um. Tudo porque os políticos só pensam neles e o povo que se dane. O boletim meteorológico prognosticava chuva e descida das temperaturas para o fim de semana que se aproximava, mas chegou sábado, passou domingo, e nada. Nem gota. Os tipos do tempo ou se enganaram, ou mentiram, ou então estão feitos com o governo, que é o mais certo com uma tropa destas. O Manel dizia e era pessoa para fazê-lo, que era capaz de ir ao terreiro do paço e apanhá-lo de espera, ao roedor do governo. Mas sozinho não dava, e confiar na carneirada que conhecia também não. Uns borregos que mudam como o vento, basta passar-lhes a mão no lombo, como aos cães. Não fosse a idade e ainda se sentia com forças e boas mãos para trabalhar no estrangeiro, mas como poderia pagar a viagem? O dinheiro do subsídio mal lhe dava para enganar o fole com um caldito de água sem conduto... Havia que fazer qualquer coisa… Havia? Há-de fazer-se...
(Inquietar)

05/01/2013

Quotidianos - 2



Saio do cinema numa noite de Sábado e, na rua, quase às escuras, vejo um formigueiro de sombras reflectindo-se na montra de um supermercado que acaba de fechar. Uma a uma vão-se apagando as luzes. Os contentores do passeio trasbordam de sacos de alimentos recém-descartados: yogurtes, ovos, carne, conservas, congelados, pacotes de leite, embutidos, cestos de fruta, montões de legumes sem brilho. No passeio, em silêncio, cada um ao seu, ignorando-se umas às outras, sem se ajudarem nem interferirem, escarvam nos contentores, elegem, separam, guardam em bolsas, amontoam em carrinhos, partem cada uma em sua direcção, com as cabeças baixas, pessoas de meia idade ou já idosas, nenhuma com aspecto marginal, pessoas como eu que procuram nos desperdícios para remediar a fome. Quem contará as suas vidas?

António Muñoz Molina
Tradução Inquietar


04/01/2013

Quotidianos - 1



..."Levantar. Banho, às vezes. Um pão seco com aguada de café com leite. Depois jardim, se fizer sol. Com frio, caminhar para aquecer. Às nove metadona. Mais uma caminhada até à praça, olhos no chão a catrapiscar as beatas necessárias para enrolar um charuto. Droga de vida. Os carapaus fritos do costume, nos acostumados almoços em que nos fritam o estômago, as tripas, o fole, as vísceras... Tenho mais um dente podre. Restam-me três que acabarão por apodrecer também. Como o fígado, os pulmões, o sangue, a vida, essa grande puta a roer-me sem contemplações, e eu a correr numa pressa sem sentido e sem saber para onde, ou para quê... Quero parar, mas não sou capaz, mesmo parando a cada segundo que passa na corrupção putrefacta  deste corpo mal cheiroso, maltratado de vícios, carências e excessos de misérias insolúveis."...
(Inquietar)