22/11/2012

Um país sem norte - a manipulação da linguagem


Que desgastante realidade. Esta realidade. O dia passa como os anteriores - a vida continua cara, aconteceu mais alguma acção de indignação, o tempo é o que é mas é o tempo dele, a Europa continua a sofrer as borrascas, ciclones e anticiclones do costume, "olá, tudo bem?, vai-se andando".., "a coisa está difícil!, pois.., é a vida". Qual vida? Porra! Que merda de existência querem as pessoas? Esta? "Então tá tudo"... Vou-me embora. Vou para casa, vou ver as notícias do jornal da noite, pronto. Qual? O da RTP 1, quero ficar bem disposto. Quero ver o Rodrigues dos Santos a fazer concorrência aos malucos do riso, a deixar a nação perplexa com as suas descobertas: "Boa noite. Os portugueses estão a fazer menos depósitos nos bancos. Há cada vez menos pessoas a poupar." A sério? Ingratos. Agora que se precisa tanto de poupanças... Será que mudaram o dia das mentiras para 22 de Novembro? Como é isso possível no reino maravilhoso da austeridade? Está a brincar concerteza. Áh. Aí vem outra: "CDS acusa PCP de «linguagem» inadequada e «arruaça»" , homessa!.. Porquê? Pelos roubos? Enfim, continuam a zangar-se porque "só a verdade é revolucionária. O espectáculo continua com alguns números, que teriam mais graça se as personagens fossem outras. Então onde é que já se viu tamanho descaro? O genro do rei de Espanha vai ter que pagar as falcatruas que fez porque foi condenado... E o Sarkosy! O Sarkosy, vejam só... Ter de sentar o cu no banco porque perdeu a imunidade... Isto só acontece em países pouco civilizados. Que venham para cá, que peçam asilo a Portugal, a pátria da justiça e da democracia, o baluarte da civilização...
Tudo isto e muito mais, dava para elaborar uma "ópera bufa" com alguma qualidade, não fosse a puta da realidade, a trágica e rude realidade que os gaspares e passos e portas e relvas e silvas, e tantos outros dramaturgos da desgraça, nos impõem todos os dias, porque continuamos demasiado "civilizados". "E tudo mais só Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca", disse o Pessoa, e pode constatar-se no texto que Nicolau Santos escreveu hoje no Expresso, com o título  "O menino que Gaspar não conhece", disponível aqui.