13/10/2012

Cardeais e política



Cada tempo tem os seus cardeais, e neste que nos toca viver, aos católicos saiu-lhes o Policarpo. Este Cardeal Policarpo - D. José -, é o Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e, por trás duma linguagem que advoga que a igreja não se deve meter em política, lá vai fazendo a dele. Na recente entrevista à Ecclésia, afirmou que não se resolve nada a contestar e "que as manifestações e o povo a governar, a partir da rua, resultam na corrosão da harmonia democrática em Portugal." Claro que o D. José não desconhece a Constituição e, em vez de defender este poder cleptocrático profundamente anti-democrático, injusto e desumano, melhor seria reler alguns dos seus Princípios, e verificaria que, hoje, é na rua que melhor se defende a Lei Fundamental da República, contra aqueles que, desde o governo e outras instituições a destroem, por não cumpri-la. 
ARTIGO 13.º
(Princípio de igualdade)
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Como pode verificar-se a partir da própria realidade social quotidiana, quer a dignidade social dos cidadãos quer todas as considerações mencionadas no n.º 2 do ARTIGO 13.º sobre o Princípio de Igualdade estão completamente abaladas pela prática política daqueles que enchem a boca de "democracia representativa", mas que se esquecem que representar não é só chegar ao poder, é respeitar o contrato eleitoral com aqueles que elegem, em função do contrato que lhes é proposto - programa eleitoral. Quantos governos cumpriram o que prometeram? Um governo que não cumpre é ilegítimo, e só representa a fraude que o mantem.

ARTIGO 45.º
(Direito de reunião e de manifestação)
1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.
2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.

O Cardeal anda "despistado". Já reparou nos euros que não entrariam nos cofres da igreja, se acabassem as manifestações religiosas como as procissões, as peregrinações às azinheiras, as festas paroquiais das colheitas, as romarias às padroeiras de madeira, barro ou graníticas santidades?
Quanto aos sacrifícios, é fácil falar desde a pele de um príncipe na terra, porque os sacrifícios são sempre bons para os outros, muitos deles ainda na pele de cordeiros de deus. A igreja,  esse paraíso de papas, cardeais e de bispos, essa casta que não passa fome, que não sofre a austeridade, que se alimenta de cristos desde os primórdios do catolicismo, pode dar-se ao luxo de dizer que não paga os seus impostos -  IGREJA RECUSA PAGAR IMI - ao abrigo da Concordata, um tratado internacional tão pouco democrático como as posições defendidas pelo cardeal. A igreja não muda, adapta-se. Salazar teve sempre o apoio da hierarquia religiosa, principalmente do seu anjo da guarda, o cardeal Cerejeira. Passos, Sócrates, Santana, Durão, Guterres e Cavaco, os coveiros da soberania nacional entre outros, contarão concerteza com as preces de D. José Policarpo, poderão até ser bem vistos por quem controla o reino do céu, mas não deixarão de ser o que são na República da Terra, como se pode ler nos cartazes das manifestações que surgem todos os dias. E podem ter a certeza, de que não esquecemos o próximo ARTIGO:
ARTIGO 21.º
(Direito de resistência)
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.