25/03/2012

"ANY WHERE OUT OF THE WORLD" - excerto


"Como as coisas são. E o que é que as guia. Um nada. Às vezes pode começar com um nada, uma frase perdida neste vasto mundo cheio de frases e de objectos e de rostos, numa grande cidade como esta, com as suas praças, e o metropolitano, e a gente que se apressa à saída dos empregos, os eléctricos, os automóveis, os jardins, e depois o rio plácido sobre o qual deslizam os barcos a poente em direcção à foz, ali onde a cidade se alarga num subúrbio baixo e branco, todo torto, com grandes buracos vazios entre as casas como olheiras escuras e uma vegetação rala e os pequenos cafés sujos, restaurantezecos onde as pessoas podem comer de pé a olhar para as luzes da costa ou então sentadas às mesinhas de ferro vermelho, um pouco enferrujadas, que fazem barulho no passeio, e criados de ar cansado e casaco branco com nódoas. (...) E agora, que fazer? Nada, não faças nada. Senta-te naquele café, a uma mesa, estende as pernas, traga-me um sumo de laranja e umas amêndoas, obrigado, abre o jornal, compraste-o por pura apatia, as notícias não te interessam, o Sporting empatou com o Real Madrid na Taça dos Campeões, o preço dos mariscos vai subir, a crise do Governo parece ter-se dissipado, o presidente da Câmara assinou o plano urbanístico que prevê a zona para peões no centro histórico, vão pôr vasos de flores entre a rua tal e a rua tal e tal e esta parte da cidade tornar-se-á um oásis para passear e fazer compras, no norte do país um autocarro entrou por uma loja de esquina dentro porque o condutor se sentiu mal e morreu de repente, não com o choque, com um enfarte, não se registam outras vítimas, só danos consideráveis na loja, que ficou completamente destruida, era uma loja de caixas de bombons e outros artigos para casamentos e comunhões. (...) E agora os anúncios pessoais: são os mais interessantes, a humanidade despe-se escondendo-se penosamente atrás de eufemismos. Ah, o véu das palavras, que dó. Viúva, séria, procura amizade duradoira. (...) Um reformado que a solidão atormenta. A agência do costume para encontros bem sucedidos: o que espera para encontrar a sua alma gémea? E depois, de repente, o coração começa a bater-te desabaladamente, tum, tum, tum, chega-te à garganta, (...) Mas porque é que te há-de acontecer a ti? (...) Voltas a ler a frase pela décima vez, isto não é um anúncio normal, é uma frase clandestina que alguém pagou para que fosse publicada num jornal da tarde, não indica apartados, endereços, nomes, empresas, escolas, nada. Só isto: Any where out of the world. (...)
(in Pequenos Equívocos Sem Importância - António Tabucchi)