01/12/2011

Portugal, 1640 - ...


Os rapazes do tempo em que eu era rapaz, dormiam de socos e samarra, com um olho aberto e outro fechado à espera que o sol raiasse. Então, inventavam pátrias heróicas, construindo sonhos para vindouros e  melhores dias. Os quatro rapazes da minha rua  daquele tempo, transformavam-se em quarenta  gigantes de palmo e meio, empunhando espadas de madeira para derrotar  Vasconcelos de palha,  numa orgia de heroísmo volátil de fogo e fumo, onde se misturavam mosqueteiros com robins dos bosques na derradeira batalha do monte das mimosas, com paz garantida matando a sede na bica do chafariz. Hoje, os homens que foram os rapazes do tempo em que se construíam sonhos com um olho aberto e outro fechado à espera que o sol raiasse, esqueceram que algum dia tenham dormido de socos e samarra, de Vasconcelos juram nunca terem ouvido falar, e transformaram-se eles próprios nuns disneylândicos espantalhos disfarçados em Portas e Coelhos Seguros... Talvez chegue um dia, em que o tempo os honre com as distinções próprias dos bonecos de palha,  ardendo na ponta de novas e  renascidas espadas de madeira...