30/04/2011

28/04/2011

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida - 4



O movimento era intenso e o verde dos semáforos nunca abre quando deve. Ajudei-o a levantar-se, amparei-o até à berma do passeio e, com cuidado, ajudei-o a sentar-se. Então disse: ó homem, o senhor tem que ir ao médico, não pode andar assim ou ainda lhe dá qualquer coisa má – e ele que não, que não suporta fármacos, químicos e ainda menos a industria, lóbis, mais isto mais aquilo, máfias -, eu sei lá... E eu, desconfiado: o tipo está pirulas, o tipo está a gozar comigo, o tipo se não está pirulas ou a gozar comigo então droga-se. Olha para ele, é só pele e ossos... Pois é, nota-se-lhe bem, seráfico - ai o marmanjão!, - e com as porcarias que andam por aí, pó-cavalo- ecstasy... Mas não se pode deixar assim um pobre de cristo, não... E para ele outra vez: Eu também tomo umas capsulazinhas, sabe? Uns comprimidinhos para as varizes, para o colesterol, para emagrecer... E ele: envenena-te pacóvio –, é o que está a pensar, que bem se lhe nota na caveira – envenena-te palonço - … é como lhe digo, olhe que até me têm feito bem, aliviam – que estará ele a congeminar na moleirinha, ah? -Aproveite que eu ainda tenho um tempinho, posso ir consigo ao centro de saúde, ao hospital se quiser – mas o pobre diabo nem mexe os olhos, este desgraçado está mais para lá que para cá, e eu que devia fazer como toda a gente ando para aqui a perder o meu rico tempo, a aturar um bandido dum drogado, lepra, vergonha da sociedade, e já nem chego a tempo de ver o jogo da UEFA e tempo é dinheiro -, posso acompanhá-lo até ao consultório do psiquiatra da minha mulher, ou ao psicólogo, ao astrólogo – mas que estou eu a fazer, ah? Já nem sei quem é mais drogado, se ele ou a minha mulher e eu aqui a perder a telenovela que está quase a começar, e a minha mulher um fardo bem pesado de aguentar, calmante para isto, revitalizante para aquilo, já não vou a tempo de meter o totoloto, porra, vitaminas para engordar laxantes para desinchar -, como queira, mas eu não posso deixá-lo aqui, pronto, não sou capaz, sou assim, o que hei-de fazer? Você é um mal agradecido, olhe que não encontra muita gente como eu, ou o que é que pensa? - lixo da sociedade -, um homem aqui a sacrificar-se, a querer ajudar e recebe como agradecimento uma cuspidela no sapato, ah?, não se faz, e foi porque me desviei a tempo ou era capaz de me acertar na gravata, ia direitinha ao casaco e à gravata.., não tem vergonha?, - e se eu chegasse a casa com uma mancha no tio patinhas?, Deus me livre, nem quero pensar... -, uma pessoa a querer fazer o bem, a aturá-lo – e a verdade é que não me está a custar nada, não tenho que aturar a Edite, Armando limpa os pés antes de entrares, Armando não quero ver jornais sobre o sofá , e eu com saudades do tempo em que não havia sofás, nem sapatos -, a preocupar-se consigo – Armando não deixes a gravata do tio patinhas nas costas da cadeira, Armando põe o mickey numa cruzeta, Armando não palites os dentes com as unhas, e eu com saudades do tempo em que andava de socos… Sapatos, ai sapatos, só no dia da Sra. do Amparo, novos, mas para durarem ás missas de Domingo durante três ou quatro anos, sempre uns números acima por causa das meias grossas no Inverno. Armando não gosto que entres no jipe com areia nas botas… - Ou aceita que o leve ao albergue ou tenho de chamar a polícia, a segurança, eu sei lá, alguém – e eu com saudades do tempo em que andava descalço e ia aos ninhos, e rapava um frio do caralho, antes isso do que aturar a Edite, essa megera, uma cabra que não tinha onde cair morta agora armada em matrona fina, areia no jipe, o jipe comprado com os euros da Europa, subsídios aos jovens agricultores, ela que nem é jovem e a única agricultura que conhece é a dos tomates espanhóis, das cenouras francesas e dos pepinos italianos, tudo comprado em hiperes, pois então, tudo à grande e à francesa que a terra suja as mãos e trabalhar faz calos -, quem diz o albergue diz outro sítio homem, um lar de freirinhas, um asilo... - coitado, eu aqui a ameaçá-lo com a polícia e a polícia ocupada a desencontrar-se dos problemas, a polícia que tinha de se ocupar era da Edite e das Edites todas deste mundo, jovem agricultora, onde é que isto vai parar -, ó homem, pronto, está bem! Não se fala mais de albergues, nem freirinhas nem asilos, mas ao menos deixe que o leve para uma rua mais central, Santa Catarina por exemplo, sempre fica mais aconchegado, há umas lojas com montras grandes, muita luz, sempre fica mais quentinho, arranjam-se uns papelões, umas caixas, sempre se encontram umas almas para não se sentir tão só…
"Clara é a Noite dos Dias Sombrios" - excerto

26/04/2011

Reler Saramago - Repensar o Mundo, 2

"A palavra mais importante é não, saber dizer não à injustiça, não à desigualdade."
José Saramago - 2001, em entrevista de Juan Domínguez Lasierra

25/04/2011

Outro Abril - outras memórias...

As portas que Abril abriu - Ary dos Santos

25 de Abril

Olá Portugal:
Cá estamos de novo, e mais velhos, não é? Mais velhos e nem por isso melhor... Pois, esta teimosia de deixar que seja o tempo a encarregar-se das coisas... Vê lá tu!, 37 anos, já! 37 anos e isto vai de mal a pior: os ricos - poucos - cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais, e mais pobres. Eu gostava de acreditar naquele ditado popular que diz "Que não há mal que sempre dure", mas sei que isso só é verdade se fizermos alguma coisa para que assim seja, porque, por mais que sonhes "que nalgum mágico dia pode chover a boa sorte, a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem choverá amanhã, por muito que a chames ou que te levantes com o pé direito". Isto foi o Eduardo Galeano que escreveu. Mas vamos ao que interessa: este ano sempre vais ter um 25 mais autêntico,ah?, o protagonismo volta à rua. Claro, à rua, que é onde deve estar Abril com a sua gente e, bem lá no fundo - apesar de alguns vícios que conjunturalmente apanhaste, e alguns medos -, tu desejas isso como pão para a boca. A volta à rua... Porquê? Ora porquê! porque é na rua que existes e fazes sentido, longe dos gabinetes daqueles que te usam e te atraiçoam, juramentos de amor por Abril, logo esquecidos em orgias com Novembro... Olha Portugal, nós sabemos que, se tu quiseres e quando quiseres, serás capaz de te erguer de novo, só precisas de vontade, um pouco de coragem para acabares com essa promiscuidade suicida em que vives há demasiado tempo - quanto?- digamos que de 85 para cá, talvez um pouco mais... Não, tu não podes continuar nessa vida de pátria-amante-puta dos poderosos, e pátria-madrasta dos filhos que te alimentam com o seu trabalho. Palavras duras? Eu sei, eu sei... mas de falinhas mansas devias estar tu cansado, Portugal, é com elas que os vampiros te chupam o sangue, " eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada..." Não te preocupes, perdoa-me o coloquialismo mas hoje "não bato mais no ceguinho", pronto! Não volto a falar-te de cantos de sereia, nem poetas, nem artistas e cantores, como fiz aqui há uns tempos atrás... Prometo resistir à tentação de embelezar a frustração das derrotas, porque, o que eu quero mesmo é lembrar-te que nem tudo é negativo. Repara no que tens de novo:
novos ânimos, novas forças, novas canções, contribuição das novas gerações, precárias e à rasca mas combativas, enriquecedoras, fundamentais para as lutas que tens - que temos - pela frente. E que tal recomeçarmos hoje? 25 de ABRIL, SEMPRE!   

25 de Abril, sempre!

25 de Abril, sempre, fascismo nunca mais!

24/04/2011

O FMI "ajuda" quem?

Na véspera do 37º aniversário do 25 de Abril, um "pouquinho de verdade" aparece na imprensa em relação aos verdadeiros objectivos do FMI: o lucro. Aos utilizadores de eufemismos como "ajuda" e "resgate", - cujo significado é roubo e colonização, agiotagem, rapina, crime, etc. - cai-lhes a máscara do cinismo e da arrogância quando confrontados com a verdade. Já pode a troyca doméstica PS-PSD-CDS falar de inevitabilidades e outros palavrões tendenciosos na defesa dos "seus mercados" de impunidade que, por muito que tentem, não poderão mascarar a realidade eternamente. Talvez nessa altura Abril renasça, nem que seja em Junho, ou quando o povo quiser...
Pode ler a notícia em http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1837014 e o artigo de opinião de Daniel Oliveira em http://arrastao.org/2242539.html.

Desde a Galiza...

Verdes são os campos...

Abril 74...

Fado tropical...

Tanto Mar...




23/04/2011

"... e sempre que Abril aqui passar, dou-lhe este farnel para o ajudar..."*


*José Mário Branco

A celebrar Abril, começar a Revolução de Junho...

Nem troyca internacional - FMI, BCE, CE - nem os seus cúmplices domésticos PS, PSD, CDS. Só na Revolução se encontram as saídas para o "Resgate da Democracia e da Dignidade Nacional". Começar em Abril a preparar a Revolução de Junho, é urgente para Recuperar a Vida e Vencer a Humilhação". Celebrar Abril em Festa, mas com Luta. Todos à Rua. 

Reler Saramago - Repensar o Mundo, 1


"Há uma cultura que falta instalar, cultivar e desenvolver: a cultura da participação.Falo de participação entendida de maneira múltipla: política, social, cultural, de todos os tipos. A participação do indivíduo na vida, na sociedade, no seu país, no lugar onde está, em relação com os outros. Claro que a democracia, para viver e se desenvolver, necessita da participação; simplesmente existem modos de a diminuir ao mínimo possível para ser considerado ainda um sistema democrático. Chamam-se as pessoas a votar, para supostamente escolherem, e esquecemo-nos que, no momento de colocar o voto na urna, estamos a renunciar ao que deveria ser o exercício contínuo de poder democrático. Se tudo correr bem voltamos quatro anos depois. nesse espaço de tempo os representantes eleitos podem fazer tudo, incluindo o contrário das razões que levaram o cidadão a elegê-los. O momento mais alto da expressão democrática é, simultaneamente, o momento da renúncia ao exercício democrático. Falta, então, desenvolver a participação como cultura, por forma a lutar contra o espírito do «Quem vier atrás que feche a porta.» E quando deixar de haver porta para fechar?!"

José Saramago em "Entrevista de António Rodrigues, Lisboa, 4 de Novembro de 1995"



  

22/04/2011

Lei Contra a Precariedade

Manifesto dos 74

          
          O inevitável é inviável - Manifesto dos 74 
Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma “evolução”, colocando o “R” no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.
O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara - com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do “grande centro” ideológico - pode significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.
O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida. Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.
O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar. Infelizmente, algum caminho já foi trilhado, ainda que na penumbra. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação. Estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista, esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.
Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em “credores” aqueles que lucram com a dívida, em “resgate financeiro” a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em “consenso alargado” a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada. Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança.
Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!
Alexandre de Sousa Carvalho - Relações Internacionais, investigador; Alexandre Isaac - antropólogo, dirigente associativo; Alfredo Campos - sociólogo, bolseiro de investigação; Ana Fernandes Ngom - animadora sociocultural; André Avelãs - artista; André Rosado Janeco - bolseiro de doutoramento; António Cambreiro - estudante; Artur Moniz Carreiro - desempregado; Bruno Cabral - realizador; Bruno Rocha - administrativo; Bruno Sena Martins- antropólogo; Carla Silva - médica, sindicalista; Catarina F. Rocha - estudante; Catarina Fernandes - animadora sociocultural, estagiária; Catarina Guerreiro - estudante; Catarina Lobo - estudante; Celina da Piedade - música; Chullage - sociólogo, músico; Cláudia Diogo - livreira; Cláudia Fernandes - desempregada; Cristina Andrade - psicóloga; Daniel Sousa - guitarrista, professor; Duarte Nuno - analista de sistemas; Ester Cortegano - tradutora;Fernando Ramalho - músico; Francisca Bagulho - produtora cultural; Francisco Costa - linguista; Gui Castro Felga - arquitecta; Helena Romão - música, musicóloga; Joana Albuquerque - estudante; Joana Ferreira - lojista; João Labrincha - Relações Internacionais, desempregado; Joana Manuel - actriz; João Pacheco - jornalista; João Ricardo Vasconcelos - politólogo, gestor de projectos; João Rodrigues - economista; José Luís Peixoto - escritor; José Neves - historiador, professor universitário; José Reis Santos - historiador; Lídia Fernandes - desempregada; Lúcia Marques - curadora, crítica de arte; Luís Bernardo - estudante de doutoramento; Maria Veloso - técnica administrativa; Mariana Avelãs - tradutora; Mariana Canotilho - assistente universitária; Mariana Vieira - estudante de doutoramento; Marta Lança- jornalista, editora; Marta Rebelo - jurista, assistente universitária; Miguel Cardina - historiador; Miguel Simplício David - engenheiro civil; Nuno Duarte (Jel) - artista; Nuno Leal- estudante; Nuno Teles - economista; Paula Carvalho - aprendiz de costureira; Paula Gil - Relações Internacionais, estagiária; Pedro Miguel Santos - jornalista; Ricardo Araújo Pereira- humorista; Ricardo Lopes Lindim Ramos - engenheiro civil; Ricardo Noronha - historiador;Ricardo Sequeiros Coelho - bolseiro de investigação; Rita Correia - artesã; Rita Silva - animadora; Salomé Coelho - investigadora em Estudos Feministas, dirigente associativa; Sara Figueiredo Costa - jornalista; Sara Vidal - música; Sérgio Castro - engenheiro informático;Sérgio Pereira - militar; Tiago Augusto Baptista - médico, sindicalista; Tiago Brandão Rodrigues - bioquímico; Tiago Gillot - engenheiro agrónomo, encarregado de armazém; Tiago Ivo Cruz - programador cultural; Tiago Mota Saraiva - arquitecto; Tiago Ribeiro - sociólogo;Úrsula Martins - estudante...

M12M - "Os cravos estão cortados"



21/04/2011

"Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida" - 3

"No momento exacto em que perdeu deus, descobriu o tamanho do homem – as suas dúvidas, medos, incertezas -, e também a força que umas vezes o habita e anima e, outras, o abandona. Também descobriu que há momentos em que os sonhos se parecem muito com a vida. Aconteceu isso quando, um dia, mirando o vale, se apercebeu que os seus olhos estavam a ver para dentro. Então soube que muitas coisas cabem na cabeça e, que esta é como um enorme baú, onde tudo o que nos acontece fica guardado. Primeiro foi o espanto, depois, maravilhado, aprendeu a viver acompanhado de memórias, ocupando as longas horas de solidão. Mirava o vale, ao longe o rio, e ouviu-se olhando-se desde as entranhas do tempo:
Mamã, de onde vêm os meninos?
Não, não era assim. As crianças da aldeia não diziam mamã e quase nunca eram meninos.
Mas de onde vêm os bebés-meninos-putos-catraios, ou como queiram chamar a essas criaturas pequerruchas, ternamente inocentes com seus olhinhos inchados, cabecinhas de gigantones anões e umas bochechas coradas como tomates?
Primeira e transcendental questão que a vida nos apresenta, ainda mal articulamos quatro sílabas juntas. Todos vêm de algum lado e há que saber de onde.
No meu tempo parece que todos vinham do estrangeiro, de mil e uma maneiras e nos mais variados meios. Uns vinham de Paris em avião, outros chegavam nos bicos das cegonhas e de outros pássaros exóticos, vindos de longínquas e não menos exóticas e desconhecidas terras, e, havia ainda uns poucos – muito bonitinhos, esses -, que apareciam a navegar em lindas cestas douradas, nas calmas águas de algum dourado rio, entre colchas no mais puro linho bordadas. Eu, não sei porquê mas não vim em avião de Paris, nem no bico de nenhuma exótica ave, e muito menos entre colchas de linho bordadas. Eu vim num barco a vapor, transporte de carvão e pipas de vinho, entre esperanças e lamentos nas vidas sofridas de gentes sem poiso certo. Muito sujo e esmirrado cheguei eu, tão escuro e enfezado que até pensaram que era negro. Diz-se.
Assim viveu ele essa espécie de sonho e acordou para a vida da paisagem, agora nos seus olhos. Sorriu primeiro. Depois, um pensamento cinzento cobriu-lhe a alma e foi a raiva que chegou. Então pensou como quem diz: a esperança é o mundo da impotência, palavra enganosa, movimento parado. E falou com os seus botões: não há esperança possível, o rio não existe sem água que corra e lhe dê corpo e, se para comer, tenho que dizer a estes olhos que não vejam mas acusem, a esta boca que não fale mas delate, amanhã mesmo correrei, e serei rio."
Excerto de "Clara é a Noite dos Dias Sombrios"

"Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida" - 2


No mais fundo de ti,
eu  sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda ouço a tua voz:     Era uma vez uma princesa 
     
No meio de um laranjal...
Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade - Poema à mãe

19/04/2011

"O Mundo Está Prestes a Rebentar"



Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

Harold Pinter, in "Várias Vozes"

http://pt.wikipedia.org/wiki/Harold_Pinter

Culinária - como se prepara uma caldeirada...

A "superioridade moral do PSD", quase passava...

Da 1ª pág. do Público

"A moralidade de alguns blogueiros", que teimam em querer vender gato por lebre, pode verificá-la em http://albergueespanhol.blogs.sapo.pt/1011524.html

18/04/2011

O lobo mau só come, quem gosta de ser comido...

BE, PCP e Verdes, dizem: NÃO!, "FMI, fora daqui..."

Os partidos da esquerda portuguesa, contactados pelos representantes da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI, souberam manter a dignidade de pelo menos uma parte significativa do povo português, ao recusarem "negociar" o "roubo" que o capital se prepara para executar em Portugal, com a cumplicidade dos chamados partidos do arco da governação PS/PSD/CDS. 

De vez em quando não faz mal a ninguém - reler Antero

Indiferença em Política

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional. 
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.

Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade! 

Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra'
 

17/04/2011

PS cada vez mais à esquerda mas...

Depois da "contratação" de alguns craques à JSD, sendo o mais destacado o actual capitão da equipa José Sócrates, o PS consegue agora assegurar no mercado de transferências,o ponta de lança que brilhou em tempos na equipa do CDS, Basílio Horta. Alguns analistas referem que, o motivo de Basílio se prende com o facto de querer acabar a carreira num dos grandes, com possibilidades de ganhar o campeonato.

Exercício de Memória - "Quem te avisa, teu amigo é", adágio popular...

Senado dos EUA responsabiliza agências de rating pela crise de 2008

"Cortes no rating pressionaram ainda mais Portugal. Investigação do Senado norte-americano responsabiliza agências pela crise do subprime", pode ler-se nesta notícia aqui, no entanto, o "destacado" economista do PSD e representante do FMI na Europa António Borges, diz que Se os mercados fossem perfeitos, o Fundo Monetário Internacional não existia... As agências de rating cumprem o seu papel e nós respeitamos as suas análises..." Ler o resto aqui.
Pois é, "o respeitinho é muito lindo, e nós somos um povo de respeito, não é filho? Somos um povo de respeitinho muito lindo, ... Consolida filho, consolida, ... que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo..."http://www.youtube.com/watch?v=ZUJts90HIHc 

16/04/2011

Lugar à Música - 11



Querido neto, vou-te contar
Uma história bem rara,
Crise nunca é culpa dos pobres
Porque uma crise é cara,
Pois quando houver uma no teu tempo,
Prepara a carteira,
Os ricos lixam tudo à vontade
E a gente paga a asneira…

(O) Zé armou-se em Chico esperto
E entregou a poupança,
Não tendo ouvido pra aquela música,
Quis entrar na dança,
E quando o quiseram avisar
Fez orelhas de mouco,
Agora anda prá aí a dizer,
Que este mundo está louco…

É quando aparece o Obama
E diz que ainda há uma esperança (?)

Querido neto quando cresceres
Vais ouvir falar em guerra,
A guerra é outra forma de roubo
Inventada cá na Terra,
Os homens põem-se uns contra os outros
De espingardas na mão,
As armas dão um lucro danado
E essa é que é a questão,


Querido neto, olha que a verdade
Pode ser outro engano,
Um dos sucessos do ditador
É dizer mal do tirano,
O homem do poder é capaz
Do que não dá pra contar,
Mandar bater ou assassinar
Pra ele é coisa vulgar…

… … … … … … … …

Querido neto, quanto a heranças
Estamos conversados,
Vou-te deixar um monte de pedras
Em vez de rebuçados,
O melhor que a gente conseguiu
Foi deixar tudo tramado,
A vigarice foi de tal ordem
Que até deus foi enganado…

… … … … …

Querido neto, vê se consegues
Fazer festa na rua,
Aos cem anos dos Beatles
E o Maio, e da chegada à Lua,
Flower, power da guerra de África
E do computador,
Do 25, da internet, do ADN
E do Amor…