31/12/2007

2007 - último dia

"Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos."

Luís de Camões

Aqui - no Inquietar - não reina nenhum tipo de superstição e entra-se em tudo pela esquerda . Portanto, votos de bom ano, e entre lá com esse pé direito - o esquerdo, claro!

25/12/2007

O filho de José e Maria...


23/12/2007

Dia de Natal - António Gedeão

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.

De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branca macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fusilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as esguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

1 dia para o natal: outro mundo é possível

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De Ary dos Santos - Kyrie


20/12/2007

4 dias para o natal: outro mundo é possível

NATAL?POIS...


Ergo uma rosa... - José Saramago

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

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19/12/2007

5 dias para o natal: outro mundo é possível

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É natal, é natal, é...

É o quê?

"ACTUALIDADE" de Mário Castrim

Os venenos, as lábias, os tambores,
as imagens, os pagens, a chantagem,
os canhões, as mentiras, a miragem,
o enxofre, os esotéricos, as flores,
os vídeos, os ovídeos, os rumores,
o cio, o grito, os mitos, a forragem,
as trombetas, tromboses, tavolagem,
os ratos, os vampiros, os credores,
a promessa, a caliça, a fossa, a massa,
a troça, a hortaliça, a essa, a ameaça,
as trelas, a barrela, os entrepostos,
drogas, cuspos, dressagens, carnavais,
eis apenas alguns materiais
de que certos sucessos são compostos.

18/12/2007

6 dias para o natal:outro mundo é possível

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É natal. é natal... Pois é...

Até aos mentirosos lhes foge a boca para a verdade, de vez em quando...

Desde a minha janela...


Entre o Douro

E a minha infância,

Só a noite,

E alguns pontos de luz

Desde a minha janela.

Um poema de Vinicius de Moraes

POEMA DO NATAL
PARA ISSO fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço,
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais, esperaremos...
Hoje a noite é jovem;da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

15/12/2007

9 dias para o natal: outro mundo é possível

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É natal, é natal, é feliz(?) natal...

Porto, sem abrigo, quem me leva os meus fantasmas, clip, é natal, árvore, metálica, pai natal, comércio, Portugal, injustiça, a cidade, injustiça, bunker, betão, sem abrigo, fome, fome, a fome, outra vez, é natal, é natal, é feliz(?)natal, banco, banca, euro, euros, é natal, é natal, é feliz(?) natal ..., ..., ..., .

14/12/2007

Sobre o chamado Tratado de Lisboa...


Os senhores da imagem estão muito felizes. Corre-lhes bem a vida: têm emprego, ganham bem e, se cumprirem como deve ser os mandamentos do Banco Mundial (BM), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), - a santíssima trindade da globalização neo-liberal-, quando deixarem os cargos que ocupam nos seus respectivos países, aínda lhes pode tocar algum extra nalgum departamento da UE, da ONU ou até da NATO, sabe-se lá... Os senhores da imagem fazem jus à velha frase de que natal é todos os dias, e acreditam piamente na existência do pai natal. E você, acredita?

10 dias para o natal : outro mundo é possível.

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É natal, é natal, é feliz(?) natal...

08/12/2007

O vírus liberal

Pelos finais do século XX, um mal atacou o mundo.Nem todos morreram dele, mas todos foram atingidos.Ao vírus que esteve na origem da epidemia deu-se o nome de "vírus liberal". Este fizera a sua aparição por volta do século XVI no seio do triângulo Paris-Londres-Amsterdão. Os sintomas com que se manifestava pareciam à época insignificantes e os homens (que o vírus atingia preferencialmente as mulheres), não só se acostumaram, desenvolvendo os anticorpos necessários, como ainda souberam tirar proveito do vigor reforçado que ele provocava. Mas o vírus atravessou o Atlântico e encontrou na seita dos que o propagaram um terreno favorável, desprovido de anticorpos, o que conferiu à doença que ele causava formas extremas. O vírus voltou a aparecer na Europa pelos finais do século XX, regressado da América, onde havia sofrido mutações e, reforçado, conseguiu destruir grande número dos anticorpos que os europeus tinham desenvolvido ao longo dos três séculos precedentes. Assim provocou uma epidemia que podia ter sido fatal para o género humano, não fora os mais robustos dos habitantes dos antigos países terem sobrevivido à epidemia, acabando por conseguir erradicar o mal. O vírus provocava nas vítimas uma curiosa esquizofrenia. O ser humano deixava de viver como um ser total, que se organizava para produzir o necessário à satisfação das suas necessidades (aquilo que os estudiosos qualificaram como "vida económica") e que ao mesmo tempo desenvolvia instituições, regras e costumes que lhe permitiam progredir (o que os mesmos estudiosos designaram por "vida política"), consciente de que estes dois aspectos da vida social eram indissociáveis. Doravante, passou a assumir-se, ora como "homo oeconomicus", abandonando àquilo a que chamava "o mercado" a tarefa de regular automaticamente a sua "vida económica", ora como "cidadão", depositando nas urnas os votos com que escolhia aqueles que tinham a responsabilidade de estabelecer as regras do jogo da sua "vida política". As crises do final do século XX e do início do século XXI - de que felizmente já nos livrámos definitivamente - giravam todas em torno das confusões e dos impasses provocados por esta esquizofrenia. A Razão - a verdadeira, não a americana - acabou por levar a melhor. Todos os povos sobreviveram, os europeus, os asiáticos, os africanos, os americanos e até os texanos, que entretanto mudaram muito e se tornaram seres humanos semelhantes aos outros. Optei por este final feliz, não por um incorrigível optimismo, mas porque na outra hipótese não haveria mais ninguém para escrever a história. Fukuyama estaria certo: o liberalismo anunciava efectivamente o fim da história. Portanto, toda a humanidade tinha perecido no holocausto. Os últimos sobreviventes, texanos, haviam-se organizado num bando errante, para depois serem imolados sob ordens do chefe da sua seita, que julgavam ser uma personagem carismática. Também se chamava Bush.
Imagino que a história da nossa época se escreverá mais ou menos nestes termos. Em todo o caso será nestes que proporei aqui a análise destas crises.
(in O Vírus Liberal: a guerra permanente e a americanização do mundo, de Samir Amin, Trad. Joana Caspurro, Campo das Letras - Editores, S.A., 1ª ed. portuguesa, 2005)
Samir Amin é economista e preside ao Foro do Terceiro Mundo.